segunda-feira, 28 de abril de 2008

Cabeça e Coração

A vida dos motoristas de vans escolares não é nada fácil. Muitas vezes são obrigados a cumprir jornadas duplas e até triplas para conseguir um rendimento salarial aceitável. Os perigos das estradas, o cansaço e a fadiga são passageiros fiéis desses profissionais, que muitas vezes passam horas longe das famílias e cruzam quilômetros para chegar ao seu destino final.
Levam nos ombros a responsabilidade sobre dezenas de vidas, que diariamente são transportadas a cidades distantes na busca de conhecimento para a vida. Muitas pessoas não pensam nas condições de trabalho desses profissionais, aos fatores a que são expostos e como conseguem suprir a carência e a solidão, pois muitas vezes, devido a distância, são obrigados a dormir nos próprios veículos até o retorno dos estudantes.
Um turbilhão de emoções persegue esses aventureiros das estradas, condições físicas podem ser dribladas as vezes, mas as condições psicológicas vão além das forças humanas e se transformam em uma barreira importante durante as viagens.
Durante o ano letivo de 2007, fiz o trajeto diário de Amparo a Campinas, aproximadamente 60 km, onde curso a faculdade de jornalismo na Pontifícia Universidade Católica (PUC-Campinas) e era evidente as transformações de humor e personalidade do nosso motorista. Eu era o primeiro a embarcar, por volta das 17:45 hrs. Algumas vezes era recebido com um cumprimento mais caloroso, outras vezes porém, um tímido olhar me era dirigido, podia perceber então que algo no longo dia do nosso motorista não tinha sido tão bom. Éramos 24 alunos, 24 personalidades diferentes, todas com suas vontades, querendo seu espaço, privacidade. Nosso motorista era querido por alguns e não tão querido por outros. Tinha uma personalidade marcante e procurava sempre demonstrar entrosamento e bom humor com os alunos, gostava de participar das conversas e se manter informado sobre as necessidades dos alunos.
Como em todo grupo de pessoas, haviam os mais agitados, que gostavam de beber e cantar, e outros mais reservados, que gostam de ler durante o trajeto ou aproveitar para descansar depois de um dia inteiro de trabalho. Esse ponto de equilíbrio sempre foi complicado, pois algumas pessoas não sabiam, ou não queriam, respeitar a privacidade do outro. Por se tratar de pessoas com idades entre os 20 e 30 anos, ninguém batia diretamente com o outro, os protestos eram feitos ao motorista, a quem cabia a responsabilidade de intermediar as relações e tentar manter o mínimo de ordem durante a viajem.
Saudade da família, esgotamento, e relações pessoais são bagagens obrigatórias em todo transporte, que cai sobre o motorista, que é o direcional das pessoas transportadas. Muitas vezes ainda fazem rodas extras para garantir um dinheiro a mais, não foram poucas as vezes, que ao desembarcar o último passageiro da noite em Amparo, por volta das 00:15 hrs, nosso motorista foi encontrar com outro grupo de pessoas para leva-las até o litoral, sem dormir, sem descansar.
O que leva essas pessoas a enfrentar tantos empecilhos é o amor pela profissão, que deve reger a vida de todos.

Um comentário:

Alvaro O disse...

Outra experiência interessante que precisa ser melhor explorada no trabalho de análise da identidade do objeto de estudo.